O mundo é dos números, mas eu gosto de letras…

Esses dias uma amiga estava no Brasil e me mandou uma foto comendo ostras. Ela disse que havia comprado algumas dúzias, mais precisamente cinco. Não sei como, mas na pressa fiz as contas e assumi que cinco vezes doze eram seiscentos. Imaginei como seria possível alguém comer seiscentas ostras, sendo que eu não tinha conseguido engolir nem uma sequer quando tive a oportunidade.

Logo, havia ali o que chamo de “pequeno erro de cálculo”. Era um zero a mais. Gostaria muito de ter a habilidade de fazer contas de cabeça como um tio meu, que é expert nisso e faz com quantos números for, mas eu não consigo. Desculpe, sou de letras.

Além de números não serem claramente o meu forte, também não gosto quando me torno um. Ou então, quando todo meu trabalho é resumido em números que podem determinar o sucesso do que tenho feito e, logo, se certas portas serão abertas para mim ou não. Quem trabalha no meio digital sabe bem do que estou falando.

Quantos acessos teve este mês? Quantos novos seguidores? Quantos likes? 

Não importa o quanto nos dediquemos às imagens, às palavras, ao conteúdo em si. No final, tudo será resumido e codificado em relatórios cheios deles. De números.

Não me entenda mal, claro que eles são necessários. Afinal, para analisar algo e evoluir precisamos de métricas. Mas é que nesses dias andei analisando o trabalho que tenho feito. Fiz muita coisa bacana ultimamente, mas notei que pela pressa e necessidade de chegar a algum lugar, me perdi um pouco na forma que faço as coisas. Não estava me vendo no meu trabalho, que envolve muita criatividade, curadoria, expressão. Isso acontece quando precisamos achar fórmulas do sucesso e então mantê-las pelo tempo que funcionar.

Há muito tempo que não focava minha energia, nem mesmo nas horas vagas, a coisas que estudei e que me dão prazer. À fotografia, ao vídeo, ao texto. Tudo isso tenho feito e muito, mas pouca coisa do que fiz nos últimos meses reflete a minha linguagem, a minha forma verdadeira de ver as coisas.

“Mas é que foto assim, com fundo azul dá mais likes”. “Tem que postar na hora do almoço, senão ninguém vê”. “Tem que ser texto curto, ninguém tem tempo para ler hoje em dia”.

Hora pra tudo, fórmula pra tudo, jeito pra tudo…

Hoje sonhei que estava de volta a um projeto que trabalhei ao longo da minha carreira. No sonho mesmo eu olhava para a minha antiga mesa e pensava: mas o que eu estou fazendo aqui se eu sei que esse não é meu lugar? Se não é isso que quero fazer? É essa a estabilidade que eu quero?

Quando acordei tive apenas mais uma confirmação de que a médio e longo prazo, gastar nossa produtividade em algo que não nos representa e nem dá prazer nos tira a chance de nos sentirmos verdadeiramente realizados com o que fazemos. Afinal, já parou para contar quantas horas por dia você gasta trabalhando e quantas te sobram para fazer o que quiser? Multiplique isso ao longo da sua vida e veja se, a longo prazo, não é assustador quando nosso trabalho não é aquilo que nos satisfaz.

De dinheiro (quase) sempre vamos precisar, não se engane, mas do que adianta ser feliz apenas aos finais de semana e durante as férias, se quando voltamos para a nossa rotina é sempre aquela velha história que não queremos contar?

Precisamos de meia dúzia de números no fim do dia, para “mostrar serviço”. É verdade. Mas e o processo disso tudo… tem te feito feliz?

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