8:05 am

Esta é a primeira crônica de que me recordo. Foi publicada originalmente em 2012, sobre minha chegada no Porto em fevereiro do mesmo ano. 

Minha vista da janela do avião já não é mais tão ensolarada quanto há cerca de 9 horas. O clima, sem sombra de dúvida, não é mais o mesmo. Começo até a pensar que o casaco que trago e que fazia minhas mãos suarem só de segurar já não é suficiente para o frio que deve estar lá fora. Os prédios e as grandes avenidas repletas de carros dão lugar à uma vasta paisagem verde. Campos quase que organizados em quadradinhos, uns ao lado dos outros. Chove como em São Paulo, mas definitivamente esta não é a minha cidade.

Já no aeroporto, não há como escapar daquele momento em que todos se reúnem em volta da esteira à espera que suas malas estejam ali e, preferencialmente, intactas após tantas horas de viagem. Lá estão elas. Malas no carrinho, hora de checar que horas são. No meu relógio 5:05 am, porém, logo me lembro do tal do fuso horário. Detalhe básico que me fez perder três horas do meu dia. Já são 8:05 am no horário portuense.

Olho a minha volta e não vejo nada que me faça pensar “isto não é o Brasil!” e assim se sucedeu até ouvir o tão famoso sotaque que sempre atribuímos aos “Manúeis” de bigode e às Marias, ambos donos de provavelmente 99% das padarias que já vi durante toda minha vida. “O que tens na mala?”, me pergunta o senhor que autoriza ou não a saída dos recém chegados no aeroporto. “Roupas”, respondi sucinta. “O que vais fazer aqui?”, retrucou o senhor sem esboçar nenhum sorriso ou qualquer sinal de simpatia. “Vim estudar…”, respondi já procurando qualquer documento que comprovasse meu vínculo com a Universidade. Após encarar firmemente o olhar daquele senhor por três longos e silenciosos segundos: “bem-vinda a Portugal”, ele me disse. Na realidade, foi algo mais parecido com um seco “pode passar”, mas foi assim que me senti naquele momento…

Uma questão de minutos e a pessoa que me esperava no aeroporto logo vai ao meu encontro. “Nataly?”, ela pronuncia com um sotaque muito típico de Portugal quando se diz as sílabas “ta”, “te” e “ti”. “Sim, eu mesma!”, afirmei eu. Quando estava quase estendendo a mão para o tão aconselhado aperto de mão (levando em consideração que todos dizem que os europeus são pessoas muito frias e que preferem manter uma certa distância e formalidade), sou surpreendida com os famosos dois “beijinhos” portugueses. Ali, meio atrapalhada no cumprimento, logo vi que a semelhança entre os lusitanos e os cariocas iam muito além dos “erres” e “esses” puxados. A quantidade de “beijinhos” distribuídos na saudação também era a mesma.

Após algumas tarefas básicas como comprar um “telemóvel” (celular), escolher o plano mais barato para ligar para o Brasil e para me comunicar com quem quer que fosse ali em Portugal (o que na altura podia não fazer muito sentido, já que não possuía nenhum contato português para quem pudesse ligar além do meu próprio número, ali anotado para eu mesma não esquecer), já estava mais adaptada com o sotaque do Porto (o que não amenizava a quantidade de “oi?” ou “desculpe, não entendi” que utilizei naquele dia e que me faziam pensar se realmente estava em Portugal e não no país vizinho, onde todos falam “ele” e “universidade” com sotaque espanhol).

Após conhecer um pouco do Porto, alguns portuenses e de fazer muitas descobertas linguísticas, tais como: rapariga, gajo, fixe, giro, nabo, força, siga (palavras essas que podem até estar no dicionário brasileiro, mas que aqui têm outro uso ou significado); percebi que apesar de falarmos o mesmo idioma e de termos, a princípio, uma cultura muito parecida, Portugal, mesmo pequenino, é uma caixinha cheia de surpresas e descobertas para se fazer.

Fim do primeiro dia do outro lado do atlântico. Então, “siga” descobrir o país de Cabral…

Santa catarina, porto, fev2012

Ps.: Primeira fotografia da viagem. Tuna se apresentando na Rua Santa Catarina, Porto

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